
E o palhaço, o que é? Ladrão de mulher! Não... Nunca roubei uma mulher. Nunca roubei ninguém. Nunca roubei nada. Mas não sou menos palhaço. Eu acreditava em dar. Em doar-se. Imaginava que a liberdade era algo valioso, condição primeira. Que a espontaneidade é que valia. Que ser quem eu sou bastava
Acreditei que por falar a verdade sempre, jamais duvidariam de mim. Que acreditariam na sinceridade do meu sorriso. Na graça que via na vida. No encanto menino do meu olhar. Na surpresa alegre da descoberta. Tinha a ilusão que poderia despertar dentro de uma pessoa o amor por mim, sem eu ter de me fazer passar por outro.
Imaginava eu, vejam só, que o amor era capaz de vencer tudo. Toda e qualquer dificuldade. Porque dificuldades existem. Assim como as diferenças. Como é bom sermos diferentes. Mas entendia que as diferenças fariam de duas pessoas mais completas, por conhecerem, aceitarem e aprenderem o que no outro é diferente. Pensava também que as semelhanças uniam.
Chegava até a acreditar que minha ingenuidade era um qualidade, e não defeito. Que gentileza gerava gentileza. Que as mãos estendidas receberiam sempre outra, com a mesma disposição. Que se segurava pelas mãos uma pessoa, quando fosse minha vez no trapézio, ela não me deixaria cair. Sempre vivi sem redes de proteção e sem maquiagem.
Pensava que meu bom humor era contagioso. Imaginava que eu sabia fazer rir. Que meu riso também seria importante e querido. Pois é perigoso conviver com quem não sabe dar risada de si mesmo. Descubro que é a tristeza que contagia. Que o rancor e a mágoa alheia faz triste e destrói até o mais competente palhaço. Palhaços não são competentes
Eu sonhava que um romance era possível. Que duas pessoas poderiam se amar mutuamente, até que a morte, em uma piada de extremo mau gosto, levasse um dos palhaços. Imaginei que um dia poderia ver minha amada trocando de fantasia, vestindo-se de noiva. Um vestido vermelho. Fantasia, não no sentido do que é ilusório, mas no sentido do que é mágico, encantador, e, por isso, tão verdadeiro.
Por tudo que acreditava, acreditava que minhas palavras eram ouvidas, entendidas ou ao menos respeitadas. Acreditava numa outra forma de viver a vida. Com criatividade, com entrega, com cumplicidade. Busca que se tornou inútil. Porque depois que o espetáculo inicial termina, um a um se vai, deixando o palhaço só num picadeiro frio.
Todos poderiam ir. Mas aquela moça, aquela que parecia tão feliz com cada gesto meu, e que me olhava com tanta empolgação e ternura, também se foi... porque também era livre para ir. Como era livre pra ficar. Mas não ficou. Achou-me sem graça e sem serventia. Que valor há num palhaço depois que o riso já foi saciado?
Um palhaço que não consegue ao menos conquistar o amor da mulher que ama. Por isso sou palhaço, que rimo com fracasso. E por ser palhaço, minhas lágrimas não são levadas a sério, não são acreditadas. Minha dor não é importante. Porque o corpo morto e estendido no centro do palco no dia seguinte é de um palhaço. E palhaços não fazem falta. Palhaço não é gente.
Por mais real, autêntico e verdadeiro... Palhaço não merece amor, perdão, credibilidade, atenção ou respeito. Afinal, palhaço nunca passa de um palhaço.
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