sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Amizades circunstanciais

Já virou clichê: “amigo é coisa para se guardar do lado direito do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não”. Será? Somente desculpas como esse trecho da música do Milton Nascimento compensam a ausência de um amigo?
É verdade que somos muito mais condescendentes com amigos do que com namorados (as) e afins. Somos facilmente levados a aceitar a falta e os defeitos de um amigo e totalmente incapazes de escutar sem retrucar qualquer justificativa de ato falho do (a) parceiro (a). Por isso que os relacionamentos amorosos são efêmeros?
Talvez porque amizade seja mesmo como na definição de Aristóteles que a divide em três formas: utilitária, prazerosa e a perfeita. Todas elas são baseadas no querer o bem para o amigo. Porém, de acordo com o motivo que rege a amizade.
O querer bem não é necessariamente para a pessoa e o que ela é mas para o que ela possa representar. Em uma amizade utilitária, por exemplo, um amigo deseja que o outro sempre esteja emocionalmente equilibrado para poder ouvi-lo e aconselha-lo, pois este é seu porto seguro. Abrindo um parênteses: curiosamente o filósofo dizia que “as mulheres não exercem a amizade em sua plenitude, pois são propensas às lamentações e suas relações com o outro derivam de situações aflitivas e de tristeza”. Não é à toa que certas mulheres tendem a se unir nos momentos mais tristes. Até parece que há uma competição para saber quem sofre mais. Caso clássico quando namoros são rompidos. Fecha parênteses.
A amizade por prazer não é muito diferente e, penso eu, é a mais comum. Admira-se a pessoa não por seu caráter, mas pelo o que ela possa oferecer de agradável e vantajoso. Grosso modo, a típica amizade de balada. Sabe aquela amiga que te acha uma companhia super divertida e só te liga sábado à noite? Então... É mais uma amizade circunstancial.
Para Aristóteles, a amizade perfeita é a mais rara e existe entre aqueles que desejam o bem um para o outro da mesma forma porque sentem assim e não por questões de circunstâncias. A amizade perfeita requer intimidade e tempo de convivência para que as pessoas se mostrem, adquiram confiança e identifiquem suas semelhanças. Não basta apenas se dizer ou querer ser amigo. Amizade é “reconhecer no outro si mesmo e amar mutuamente”.
Amigos circunstanciais tenho inúmeros! Eles são perfeitos no que diz respeito à distração. Utilitários e prazerosos, sim. É uma troca consciente. Distinguí-los é o segredo para uma boa convivência e para evitar decepções. Afinal, quantos amigos se dizem perfeitos da boca para fora: “o que precisar estou aqui”.
Claro que tenho amigos os quais considero perfeitos. Poucos, que conto apenas nos dedos de uma mão e que me são caros. Alguns de longa data, outros mais recentes e não menos importantes. Sou privilegiada pelas grandes amizades que mantenho e por elas faria qualquer coisa. Infelizmente, nem tudo está dentro da minha capacidade.
Os compromissos do dia-a-dia realmente impedem de estarmos constantemente juntos trocando confidências ou simplesmente jogando conversa fora, mas tento estar presente ao máximo na vida de meus amigos e, o melhor, não preciso cobra-los para que façam o mesmo. Eles naturalmente sabem a diferença que faz alimentar uma amizade e que ela não é limitada a isso ou àquilo. Todas as formas são essenciais e se complementam quando o amigo é verdadeiro. A amizade tem o dom de exercitar nossas virtudes em diferentes circunstâncias. E é fato: sem ela a vida seria bem mais complicada e menos saudável.


"Tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado"

Um comentário:

Unknown disse...

Mas não era no lado esquerdo do peito? Guardei meus amigos no lado errado?